19.9.14

Alerta final.

Um leitor escreveu e acho que o que eu ia responder a ele, posso dizer a todos, sobre minha decisão. 

Ô Tonho, para com isso, cara!! Num para o blog não! Que isso!! Pelo menos da minha parte, toda vez que me sentia deslocado por causa de tudo que a doença causa, suas ideias sempre davam um alento pra que não achasse que era o único a sofrer. A morte da sua irmã foi terrível! Mas o fato de você continuar vivo e lutando, tem sido INSPIRADOR!!


Pelo visto, sua namorada tem muito a acrescentar a você. Uma guerreira entende melhor a gente! E você dá a entender que a vida dela não tem sido nenhum mar de rosas, desde a infância.


Vai embora não, cara. Porra, acompanho seu blog em silêncio por tantos anos e agora que faço contato você DESISTE?? Faz isso não, parceiro!! 


As trevas não podem vencer... Não de novo... Não conosco... Vão ter que nos engolir...


leo



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Não tem treva não, Leo. Ninguém engole a gente a não ser a gente mesmo. 

Eu escrevo, mas não sou escritor. Desde que eu vim aqui, em 2005, cada postagem minha era de alguma forma um nó na minha própria garganta, uma necessidade de contar para outras pessoas que eu queria alertar, de forma meio ingênua, acreditando que eu tinha encontrado uma solução para cada situação que eu retratei aqui. E cada pessoa tem sua história, isso tem sido cada vez mais verdadeiro para mim. 

Então os nós na garganta que eu tinha e queria contar aqui, para mais uma vez "alertar" as pessoas que me leem, tinha muito a ver no final das contas, com eu simplesmente constatar que a loucura, a minha, a sua, a nossa loucura, muitas vezes é confundida com a loucura de pessoas aparentemente sãs que estão a nossa volta e que alimentam a própria loucura enquanto culpam a nossa loucura. Não importa que as mínimas variações de sintomas aumente o número de transtornos existentes hoje nas classificações aceitas. Muita gente (eu, incrédulo, diria que a maioria) vai querer sempre parecer o mais normal, que dirá quando é característica da própria loucura fazer questão de vender uma aparência de ser essa pessoa absolutamente normal. Todo mundo, independente do transtorno que o rotula, sempre vai tentar impor seu jeito de pensar e agir como o padrão ideal de sanidade. 

E nós, os reconhecidamente loucos, sempre veremos nossa loucura como o bode expiatório das mazelas do mundo. 

É clichê dizer "ei,não deixe o mundo ditar as regras da sua loucura"? Tá dito. Muitas pessoas sempre irão tentar impor seu modo de ver as coisas e vão usar a nossa loucura contra nós para convencer a gente e o resto do mundo que eles é que estão certos. Se conseguirmos assumir o perigo que nossos atos representam, não iremos cuidar melhor para que eles parem de destruir, quando são destrutivos?

Hoje eu acredito que qualquer pessoa, por mais transtornada ou por mais aparentemente normal que seja, consegue estar ciente, se quiser, nem que por alguns instantes, do perigo que ela é, do mal que ela pode causar a outras pessoas, se deixar sua própria loucura, ou pretensa sanidade decidir, ao invés de usar sua loucura ou pretensa sanidade para refletir sobre os porquês das necessidades suas e sobre as consequências para quem absorve os reflexos dos seus atos

Boa parte das pessoas simplesmente ignora isso porque não entende que tudo, não importa no contexto de loucura ou sanidade, tudo é o poder de escolha, Tudo é a própria liberdade tendo voz dentro de cada um, e dando a cada pessoa poder para decidir o que fazer da própria vida. Muitas pessoas não se importam com as consequências dos seus atos, a maioria nem se dá conta do mal que faz, em muitos momentos da vida. E sempre irão manipular para obter o que na cabeça delas é uma vantagem, o poder que o controle pelo controle traz, a não ser... que a liberdade de escolha do controlado faça com que o controlador perca o poder que tinha. As ameaças que eu sofri não surtiram o resultado esperado, antes me incentivaram, diante da minha liberdade de escolha, a recomeçar em outro lugar, mas escrevendo tudo o que eu acho que devo contar. 

Não fui vencido, nem nada disso, por parar com o blog. Só vou para outro lugar, recomeçar, escrever com liberdade novamente. Sempre prezei meu anonimato aqui no blog. No momento que eu desrespeitei isso, eu já sabia que um dia poderia ser cobrado. É justo dizer que estou dando poder a essa pessoa de decidir os rumos da minha vida? Ou as ameaças que me fizeram migrar de blog, ir para outro canto qualquer do mundo fez com que essa pessoa perdesse, de vez, o controle sobre o que eu vou escrever? 

Tenho todo o direito de me libertar. E tenho todo o direito de escrever a minha história. Tenho todo o direito de ser mais um, anônimo, escondido do mundo. E lamento. Mas é o que é. 

Não deixem nunca que o que o mundo define hoje como normal, seja imposto sobre o poder de escolha que sua loucura traz a vocês. 


5.9.14

Enfim

Vou começar outro blog. Lamento muito aos meus leitores por isso, mas vou sumir da rede, não vou dar pistas do meu endereço. Sei que quase todas as 193 postagens, em 09 anos, foram recentemente para os rascunhos e só eu tenho acesso. Farei o resto com as demais também, em breve. De verdade, lamento por vocês.

Sei que em muitas postagens pareci arrogante. Não vou me desculpar por usar um mecanismo de defesa que só eu sei a dimensão da minha luta para derrubar. Só lamento se a ajuda que eu tentei dar deixou de ser ajuda por causa da forma que eu coloquei as coisas.

Sei que ajudei algumas pessoas ao longo desses anos. Não se enganem, a recíproca foi verdadeira. Como minha irmã, cheguei a beira do suicídio esse ano. E foi especificamente por causa de vocês, da responsabilidade que eu tenho com vocês, que tem algum transtorno e que podem de alguma forma pensar em fazer isso, que eu não fiz. Quando eu pensava em suicídio e pensava nos meus filhos, eu pensava, com meu pensamento depressivo naqueles momentos, que meus filhos estariam melhor sem mim. Mas quando eu pensava em vocês, não tinha como não ter a certeza que era  a pior merda que eu poderia fazer. Então, foi por vocês. Vocês me salvaram. Obrigado.

Eu lamento mesmo. Mas sem liberdade de escrever o que eu quero, não consigo.

Ah, outra coisa, que eu faço questão, arrogante ou não, de dizer. Não tem uma porra de uma vírgula, nesses 9 anos, de tudo que contei aqui, que não foi verdade.


Meu último e derradeiro FUI.

https://www.youtube.com/watch?v=IpY5E0XcIgg






3.9.14

Terapia não.

Não sou obrigado a querer. Não sou obrigado a acreditar na funcionalidade de métodos baseados num pretenso conhecimento das profundezas da mente humana. Nunca engoli a idéia de firmar um contrato onde de um lado, eu abro tudo de mais particular e doloroso e até as coisas boas que aconteceram na minha vida e de outro, alguém totalmente estranho a mim, que pode ou não ser confiável e que se diz conhecedor dos caminhos da mente humana vai ganhar dinheiro para deixar seus próprios conceitos se misturarem a um conhecimento que é mais pretensão que conhecimento mesmo e no final das contas, influenciar e ditar como eu devo pensar para resolver os meus próprios problemas.

Tudo bem, tem pessoas que não saem de si mesmas, que tem um medo absoluto de digerir e se responsabilizar pelos próprios males, que preferem deixar a culpa para outro, ou que preferem dizer que toda culpa é besteira. Não, não e não. Dos meus problemas cuido eu. Eu tenho os medicamentos e eles, de fato, sem sombra de dúvida, me ajudam a organizar o pensamento. De resto, basta eu ter a companhia de amigos decentes, dos meus filhos, dos meus pais enquanto forem vivos, do meu cachorro Tyson, enquanto ele for vivo e do cara depois dele. Todo o resto é efêmero, acredito hoje, infelizmente, que até mesmo as mulheres. Acho que basta eu acreditar em mim, nem que "fé em mim mesmo" seja um choque pra enfermeira que preenche o prontuário no Hospital, antes da minha segunda cirurgia:

- Qual sua religião?
- No momento, eu não tenho religião. 
- Mas...como...como assim? Você tem que acreditar em alguma coisa...
- Eu acredito em mim. 
- Ahan. Ateu, então?    

Eu não disse isso, Mas percebi que o problema dela era registrar a expressão "fé em si mesmo". Mas eu entendo. Eu passei um longo período onde eu perdi totalmente a fé em mim mesmo. E acredito que no futuro, vou enfrentar outras situações onde isso aconteça novamente. A essa altura da vida, carrego uma certeza, a de que eu me levanto. O suicídio da minha irmã mostrou isso pra mim, em primeiro lugar, que ninguém no mundo é igual, nenhuma doença se manifesta igual, com a mesma força em quem tem o azar de ter mais o fator doença pra enfrentar. E doença é doença, do mesmo jeito que as opiniões dos médicos sobre reoperar minha perna variam, qualquer consenso em transtorno mental é absolutamente inverídico. Hoje a medicina entende que causas orgânicas contribuem muito mais do que eles imaginavam para o aparecimento ou continuidade de um determinado transtorno mental. 

Agora, terapia não é assim. Claro, há ciência na terapia. Uma mudança concreta no padrão de pensamento de um indivíduo pode fazer com que suas conexões cerebrais também se alterem. Mas isso eu posso fazer sozinho, tem inúmeras formas de agir que podem influenciar meus padrões neurais. Entre elas, eu não considero o contrato com um terapeuta uma forna tão válida quanto ler bons livros ou conversar com amigos íntimos, por exemplo. Certa está a garota com quem estou saindo, ficando, namorando, sei lá. 

- O que? Problema? Eu tenho 1000 jóias de piercing esterilizadas pra lacrar e operei a mão por causa de síndrome do túnel do carpo duas vezes. Isso aí você acha que é um problema? Ou o que? Falar dos  meus problemas? Da minha infância? Tô sossegada de infância. Já viu o vídeo do maluco que fala "num interessa pá você. Morre diabo!" É tipo isso. Ahahaha. 





Pois olha...

fui.