15.7.14

No tengo nada.

Às vezes dá vontade de parar com a medicação, só pra ter certeza que eu de fato tenho alguma “coisa”. Os últimos anos foram muito estressantes e finalmente estou tendo paz, tudo se ajeitou inclusive dores sentidas, frustrações vividas e alegrias desmedidas. “Estou” normal, é isso: Homeostase, equilíbrio. Assumir as rédeas da própria vida. Entregar os pesos e as reais medidas, de tudo o que foi dito, experimentado, revirado, revoltado, revivido e resguardado. A vida é bela. Eu tenho sorte, quem diria.

“Não acredito quando me dizem que você é um louco”, me diz um advogado antigo daqui onde vivo, que me encontra num show de rock de uma banda antiga, daqui onde vivo. Acredita sim, porque é confortável para ele. Mas no momento, tenta ser solidário indo contra as difamações por mim sofridas, ou quer me dar um recado educado. O que me impressiona é a minha capacidade de dar de ombros ao comentário e seguir cantando tudo que é rock de primeira linha, coisa de banda de rock antiga. E antigamente eu não era assim, antigamente faltava tranquilidade, hoje está sobrando.

 Voltei a sair com a garota de 23 anos, parei com o preconceito que tinha pela sua idade. Ela é incrível, já viveu de tudo: competiu em umas mil provas de rodeio, acampava com os cavalos nas cocheiras de todos os rodeios que ia, nem em hotel queria ficar. Faz trilha de moto, entende de mecânica de autos, gosta de música que presta e é o que é simplesmente sendo, não aparecendo, ou só parecendo ser aquilo que nunca foi. Não me cobra nada, não me pressiona jamais, sabe da minha doença, mas isso de fato não lhe interessa. É jovem, quer se divertir e apenas isso. Seu pai é apenas um ano mais velho que eu e ela tem uma sintonia incrível com ele, então acho que Freud não explica nada.

Sinto o impulso de fazer coisas por mim, coisas bestas, do dia a dia, mas que importam pra autoestima. Minha diarista lesionou o dedo, me abandonou e foi ótimo. Indicou outra, mas eu não quis. Agora lavo a roupa, mantenho a casa e tenho até planos para o jardim. Gosto da minha companhia, gosto das noites de domingo sozinho. Então, o que eu tenho mesmo?

Borderlines não suportam a solidão, não é o meu caso. Bipolares nunca ficam curados, ou pelo menos nem sempre ficam estáveis. No momento, isso não se parece nada comigo. Caramba, é estranho. Nem lembro direito das minhas manifestações de ódio, digo, na vida real, mas 9 anos de blog estão lá, nos rascunhos, pra não me deixar esquecer desse passado. O que eu me pergunto é até que ponto a medicação é quem fez toda essa diferença? Porque veja bem, tomei remédio de todo tipo em 10 anos e além disso, enfrentei suicídio da irmã, câncer da ex, quando ainda éramos casados, conflitos com os pais, que duraram a vida toda, até agora, porque também acabaram. Duas separações, ambas com uma saraivada de difamações e isso me queimou mesmo, na pequena cidade onde vivo e o reflexo disso tudo, no meu sentir, hoje é inócuo, vide meu dar de ombros ao advogado no show de rock da banda antiga.

Todo mundo vive seu inferno pessoal. Todo mundo fica na parte baixa do ciclo, pra depois subir e no futuro passar outras poucas e boas. Quem tem um transtorno também, mas talvez a dificuldade em reconhecer essas variações seja mesmo maior do que se nada tivesse. Sei lá. Não desprezo tudo o que passei. Mas hoje, equilibrado, eu entendo porque tanta gente acha que transtorno é desculpa e frescura. Porque hoje, fora o detalhe de administrar 3 comprimidinhos (02 de um estabilizador e um de um antidepressivo) ao dia, eu sinto como se não tivesse nada.

E nossa, é estranho deixar todo um inferno lá atrás, onde as coisas perdem a razão de terem um dia sido.

Fui. 

9.7.14

Instinto

Eu nunca mais deixo de confiar no meu instinto. Passei mais de ano tentando entender o que aconteceu comigo durante o meu último relacionamento sério, por que eu não conseguia confiar nela, porque tudo me cheirava a uma dissimulação de alguém que não sabia realmente o que queria. Daí ontem escrevi para ela, contando como me sentia, das respostas que não vieram após o término, do quanto isso tudo me incomoda até hoje. Ela mais uma vez usou suas evasivas, as mesmas respostas padrão de sempre. Só que eu soube como conduzir a conversa, e ela, com muita raiva por estar sendo desmascarada, acabou sendo pega mentindo várias vezes para mim, até baixar o nível e mostrar quem é de verdade: uma pessoa vil, controladora, incapaz de amar, sem sentimentos por ninguém que não ela mesma e mesmo assim, os piores sentimentos possíveis. Uma pessoa  extremamente confusa sobre o que sente e o que quer. 

Senti um alívio imenso. O problema é a idealização. Quando a gente se apaixona, a gente cria uma imagem na nossa cabeça, que não corresponde a quem a pessoa é de verdade. E às vezes, é duro demais enxergar que aquela imagem era só isso mesmo, uma idealização, porque isso implica assumir que erramos em nossa escolha. Não me apaixonei por ela. Me apaixonei pela imagem que eu criei e que entre ontem e hoje, conversando por email, ela desmistificou. Finalmente. Poderia ter acontecido antes, eu dei todas as chances dela ser honesta comigo, mas tem gente que se você obrigar a dizer a verdade, parece que vai explodir. Bem, hoje ela disse. Não foi bonito. Mas foi melhor do que a patifaria inútil que eu passei o ano todo, me sentindo culpado por algo que não tinha nada a ver comigo.

Fui.


2.7.14

Maldade velada.

Essas faltas do futebol, né? Não é diferente no estádio da copa e na escola das crianças em muitas situações. Minha filha mais velha, vem me perguntar o que fazer quando a amiguinha com a bola no pé vem pra cima dela com tudo e ela se apavora. Minha filha mais velha é pacífica por natureza, só que isso a torna passiva algumas vezes. Nenhuma de ninhas filhas apanhou, tomou só um tapinha, ou beliscão, ou chacoalhão, ou qualquer desses absurdos que fica todo mundo aí discutindo, sobre a legalização da violência. Enfim, minha mais nova tem sangue nos olhos e revida no ato. Minha preocupação com ela é outra, é com os excessos. Não me conformo com os pais que fecham os olhos para a realidade de situações como essa que minha filha me pediu ajuda. Geralmente são os que acham que seus filhos não fazem nada dessas coisas.

Então eu ensinei a ela o que ela precisa saber pra se defender de uma agressão velada dessas, onde a colega de turma vem com a bola e com tudo pra cima da adversária, sabendo que vai assustar, que possivelmente irá colidir, talvez derrubar, pra causar, pra chamar a atenção para si, exercer o poder. Ahan. Agora, tem uma coisa. Em qualquer situação de combate, principalmente para quem não domina situações de combate, se defender pode implicar em machucar o outro e pode implicar até em que o outro se machuque sozinho. Então, primeiro, eu ensinei a minha filha a sair da frente. O poder que tem um olhar centrado que marca a hora certa e meio passo de lado, sempre preservando um pé a frente, nunca ficando numa posição de pernas paralelas em relação ao oponente. Para isso funcionar, claro, tem que aprender a administrar dentro da mente as reações de luta e fuga. Ensinei que basta observar: se a oponente estiver mais a sua esquerda, ela vai sair com esse passo pra direita e se oponente vier mais da direita, ela vai sair pra esquerda. Ensinei ela a articular os movimentos de quadril, ombros, cabeça com a passada de lado para manter o equilíbrio e mudar o ângulo. Daí eu ensinei ela a fazer isso usando a força da oponente:quando a oponente vier pra cima, além de sair de lado, ela agarra a oponente e a lança com mais força na mesma reta que a oponente traçou quando se lançou sobre ela. E que fazer desse jeito, iria machucar a oponente, que se esborracharia no chão. Ah, desculpem chamar de oponente. Mas quem inicia uma situação de combate, ainda que velada,  vira oponente. 

Depois eu a ensinei a bloquear o avanço descoordenado da oponente. Sempre com um pé mais a frente, idealmente em diagonal com a oponente, ombro a ombro, projetando o peso do seu corpo a frente, mas sem desequilibrar, caso a oponente se aproxime rapidamente e quando estiver segurando, se afaste pra derrubar. Não é muito diferente de dançar, minha filha faz dança, então, aprendendo a coordenar partes diferentes do corpo, isso vira brincadeira. E esse jogo de corpo, em algumas situações, é uma maneira de proteger o oponente dele mesmo. Quero que, diante de situações como essa, ela aprenda como se posicionar para que não tenha que retroceder um milímetro e que se tiver, que seja só pra manter o equilíbrio e minar qualquer forma de ataque. A defesa que não só não fere o oponente como o protege de sim mesmo é serviço para os mais fortes, eu considero o nível mais alto da escala de defesas possíveis contra um ataque. Segurar a oponente que tenta lhe derrubar, no jogo de corpo, é um jeito gentil de lidar com a situação, porque ela interrompe a agressão e não machuca a colega bully de turma. Minha filha ainda tem muito a treinar para efetivar isso, mas quem domina situações de combate, muitas vezes, tem a chance de escolher entre 1- se defender e não machucar o oponente, 2- se defender e machucar o oponente, 3- se defender e proteger o oponente dele mesmo. Outro exemplo: Se uma pessoa vem me dar um tapaço com a mão direita na minha orelha esquerda, eu posso escolher, por exemplo, entre levantar a guarda da mão esquerda, o que bloquearia o golpe cruzado entre o meu e o antebraço do agressor, e o choque de antebraço não machucaria exatamente o agressor, ou eu posso escolher dar meio passo para trás, com a perna de trás,e isso vai deslocar minha cabeça o suficiente para que o tapa passe no vazio, desequilibrando o agressor e o deixando vulnerável pra eu fazer coisas que eu não ensinei a minha filha. Se eu estiver ao lado de uma parede, por exemplo, alguém sem domínio do próprio corpo que tente me dar um tapaço vai desequilibrar com o tapa cruzado que passou no vazio, não vai saber frear a mão no momento certo, e vai dar com a mão na parede e possivelmente lesionar os dedos.  

Minha filha está super empolgada com a  descoberta recente de um poder que ela não sabia que tinha. Fizemos muita saída de golpe e jogo de corpo ontem, me lancei, com meus 96 kg em 1,84 contra ela, que tem 11 anos. Garota durona ao extremo, com um coração imenso, que não quer fazer mal pra ninguém, mas tem que aprender a se defender, porque do outro lado tem algumas crianças malcriadas e com traços de crueldade que elas aprendem a esconder sendo populares na escola. Bem, azar. Quem cria situações de combate, geralmente é quem, além de covarde, não sabe nada ou sabe muito pouco de combate. Quer aprender a lutar? Não vá jogar futebol, vá aprender a lutar, oras. 

Saudações pugilísticas.