20.8.14

A vida num pé só.

A vida num pé só é muito difícil. Durante dois meses, não vou poder pisar no chão. Já levei 4 tombos desde o meu acidente, todos eles de muletas  e no terceiro deles, eu talvez tenha estourado o reparo cirúrgico em um dos lados do meu tornozelo. Se isso aconteceu, pode ser que eu nunca mais possa correr ou boxear. Vou saber hoje, tenho consulta médica. Acho que não aconteceu nada, porque a dor que eu sinto não é maior do que a que venho sentindo desde a cicatrização dos cortes cirúrgicos. Posso dizer que experimentei vários estados dolorosos diferentes e se eu fosse classificar por nível de dor, numa escala de zero a 10, sendo 10 o nível mais alto de dor de um ser humano, aquele em que o cara chega a perder a consciência, eu classificaria mais ou menos assim: do momento em que quebrei a perna e o tornozelo (7,0), onde fiquei quase uma hora e meia esperando socorro e nesse tempo, a fratura amorteceu a perna (6,0), ao pronto socorro onde o médico tentou colocar no lugar uma primeira vez (8,0) e uma segunda vez (9,5), a uma semana inteira com os ferros estabilizadores (entre 6,0 e 8,5, dependendo) ao meu terceiro tombo (8,0) e no meu dia a dia antes de cicatrizar (entre 5,0 e 7,0) e depois de cicatrizar (entre 4,0 e 6,0) o que posso afirmar, é que não sei mais o que é viver sem dor alguma.

Eu sinceramente não sei como é possível alguém com fraturas como as minhas, que tenha uma vida sedentária, consiga se virar, trabalhando, indo de um lado a outro, tomando banho em pé, enfim. Porque eu pulei tanta corda nos últimos 8 anos que tenho um condicionamento muito bom pra atuar como saci e ainda assim, me vejo obrigado a baixar de peso um pouco pra suportar andar de muletas durante esse período. Não dá. Uma pessoa normal não aguentaria isso. Minha ex diz que eu sempre tenho que me colocar acima das pessoas pra me sentir igual, mas ela sempre colocava todo mundo abaixo dela, então é falácia. Não me acho melhor que ninguém por ser atleta, só fico aqui tentando entender como é possível isso me cansar desse jeito e imaginar alguém não atleta tentando fazer o que eu faço. Acho que a maioria fica literalmente de cama. Talvez é o que eu deveria fazer.  Sei lá. Vamos ver o que diz o médico.

A vida num pé só delimita quem realmente se importa com a gente e quem é mais marketing mesmo. Na hora do aperto a gente realmente conhece quem é quem. E não é fácil, do meu lado, engolir o orgulho e pedir carona, pedir pra acompanhar em consulta, pedir pra pagar conta, pedir um copo de água que seja. O mundo virou uma coisa imediatista, individualista e a maioria das pessoas parece que tem comichão em pensar em ter de abrir mão de meia hora de sua vida perfeita para ajudar. Já outras pessoas demonstram um amor raro, do qual vale até a  pena  sentir alguma dor para experimentar.

Agora, tem uma coisa que está sendo muito interessante, na vida num pé só. Em 9 anos de blog, eu sempre me queixei dos meus processos de auto-sabotagem. Agora me vejo nesse estado, onde eu realmente estou limitado para fazer coisas que antes só a mente limitava. E é incrível constatar, depois da vida num pé só, como eu era antes limitado por mim mesmo, sem razão. Talvez a felicidade que sentimos com a sensação de dever cumprido seja fruto da satisfação em constatar nossa ausência de limitações.


Fui. 

11.8.14

Amor de verdade

Os dias passam, e eu vou me recuperando. As dores terríveis que senti com aqueles ferros cravados supera completamente as que sinto agora, com cortes cirúrgicos, pontos, pinos, placas e gesso. Foram 3 fraturas feias, disse o médico. Incrível conseguir consertar, dei muita sorte, quem diria, sorte, depois desse pandemônio todo. Não, pera. Deixa eu analisar minha vida direito. Tenho 42 anos, 3 filhos que me amam, um emprego estável, uma garota jovem e sexy, livre e desimpedida, que faz absolutamente tudo pra me ver feliz. Nunca tivemos uma única discussão, não dá pra entender, se o louco era eu. É o que eu digo, nunca mais desconfio do meu instinto, que ano passado vivia em sinal de alerta, um inferno, do qual  finalmente me libertei. Nunca pensei que me sentiria com sorte por isso. Ganhei um baita respeito no meio do boxe, com chances cada vez mais reais de carreira empresarial. Estou bem financeiramente. A medicação me mantém absolutamente estável. Tenho inúmeros amigos que me amam de verdade, 4 deles ofereceram suas casas para me abrigar quando eu voltar, e enquanto estiver debilitado. Decidi ficar com a garota, ela mora sozinha, meus amigos e amigas tem família, filhos, não é legal. Começo a me apaixonar por ela. Eu estava certo. Uma relação gerada sem nenhuma expectativa, sem nenhuma idealização, de onde só boas surpresas saíram. Vou recuperar minha saúde, agora já sei, a cirurgia foi um sucesso. Não estou preso a nada, a ninguém, sou absolutamente livre para fazer o que quiser, para ir onde quiser, para viver como quiser. Meus pais me amam, estão me tratando como a um príncipe. Me dou muito bem com eles, não temos conflitos. Meus outros familiares vem me visitar aqui, se importam comigo. Na verdade, não tenho conflitos com absolutamente ninguém, isso ficou lá atrás. Não tenho do que reclamar não. A dor física de agora não é nada perto da dor desconsertante que senti, quando escrevi o post anterior. Passou, tudo de ruim passou. Até parei de fumar. Que coisa. A vida é surpreendente. Não dá pra ter certeza da sorte, nem do buraco. Não dá pra saber o que vem depois. Claro que não existe vida perfeita, alegria perfeita, equilíbrio perfeito. Mas quem precisa disso, quando tudo o que se tem em volta, agora, é amor de verdade? 

Fui.   

4.8.14

Fuck you! Fuck you! Fuck you!!!!!



A dor é insuportável. Caí de skate andando com o meu filho. Fraturei a perna e o tornozelo. Estou com estabilizadores de ferro, do tipo ilizarov, fixados em 4 pontos, dois na perna, dois no pé direito. Como fraturei perna e pé, não tem posição cômoda. E tudo isso aconteceu a dois dias de ir pro campeonato brasileiro de boxe.  Estou chapado de codeína, que não alivia muito a dor. E mais cefalexina, nimesulida, pantoprazol, paracetamol e os dois medicamentos psiquiátricos. Isso aconteceu enquanto eu estava nos meus pais, vim pra cá dois dias antes do campeonato, para ficar um pouco com meu filho. Não tenho informações sobre a segunda cirurgia que vou fazer, se vou tirar os ferros e colocar placa, ou se vou colocar placa de metal e ficar com os ferros. Quando me acidentei, o resgate levou uma hora e meia. O local onde o osso da perna lutava pra sair rasgou. Tive de por os ferros porque o resgate demorou e todo meu conjunto articular ficou instável. Tentaram a frio colocar o pé no lugar 3 vezes antes de decidir operar. Cheguei a delirar de dor. E perdi a oportunidade de ir pro campeonato. Estou a mais de 100 horas com dores insuportáveis. Vou ficar 6 meses sem andar, pelo que me disseram por alto. Talvez eu não volte mais a correr, nem a boxear. Eu não aguento mais levar tanta pancada da vida. Estou entregue. Desisto.