28.4.15

Autópsia de um desastre

Ate hoje eu reflito sobre o relacionamento mais difícil  e de longe o mais conturbado que eu tive em toda minha vida, entre 2012 e 2013. Um único ano pode mudar muita coisa. Sou muito grato pela experiência ruim que eu tive, nenhuma outra experiência amorosa me ensinou tanto sobre mim mesmo e sobre o que vale a pena e o que não vale a pena num relacionamento. Mas tudo isso eu aprendi após o término, muito tempo após o término e necessitou um esforço rotineiro para entender tudo o que aconteceu, um esforço do tipo buscar lembrar tudo o que aconteceu no mesmo dia do mesmo mês do ano anterior. Cada dia que passou em 2014 foi um dia para me lembrar de como as coisas estavam no mesmo período de 2013. Todo esse esforço de compreensão aconteceu, porque foi muito difícil mesmo entender que tempestade caótica foi aquela que eu enfrentei. Refletir sobre isso hoje, ainda, acontece porque eu não tive referências de quem ela era, pelo menos não durante o tempo que estivemos juntos. Depois a verdade vai aparecendo devagar, principalmente pelo sentido que tudo o que aconteceu vai começando a fazer. 

A resposta sempre está na nossa própria mente. E muitas vezes, senão sempre, desde o início. 

E a verdade é que desde o começo ela queria terminar, mas não sabia como, pois já tinha sido impulsiva e largado um casamento de longa duração com 3 filhos, numa cidade pequena com ares de preconceito provinciano. E enquanto ela planejava e agia em sua saída, eu ia em outra direção: a da necessidade de manter a relação, por um medo danado que eu estava na época de me desestabilizar se houvesse mais um rompimento, sem me dar conta, conscientemente, que mais um rompimento era o que ela reservava a mim, desde pouco tempo depois do começo desse relacionamento infernal, até o momento em que ela achou ter conseguido sucesso em convencer a todo mundo do monstro que ela dizia que eu era. E em parte, ela tinha razão, eu era, não só como resultado dos ataques constantes a minha auto-confiança, mas além disso, os medicamentos da época, durante todo o ano de 2013 já não estavam mais fazendo efeito. Enquanto o caminho dela foi terminar devagar, planejando uma saída que não manchasse sua reputação com o mundo lá fora, o meu foi tentar continuar, desesperado pela instabilidade que eu sentia por conta da medicação começar visivelmente a falhar. Quando isso acontece, a capacidade de dar lastro ao pensamento desaparece. E estar sozinho numa hora dessas é o caos total. 

Uma coisa é sair de um relacionamento onde houve uma troca verdadeira entre as pessoas, porque daí a reflexão sobre as razões do término são muito mais claras, afinal, pelo menos um pouco a outra pessoa se tornou conhecida e a partir do conhecimento que se adquire do outro fica mais fácil entender as razões do rompimento. Mas quando nos relacionamos com alguém impossível de entender, porque tudo o que a pessoa ofereceu foi uma grande bolha de mentiras e segredos, ora bolas, eu só posso me perdoar pelo longo tempo que levei para entender uma premissa tão básica quanto a de que ela não queria nada comigo, desde que o impulso de sair do próprio casamento anterior dela foi satisfeito com sua separação de fato. A partir desse momento eu me tornei descartável. Daí o plano foi minar minha auto estima o suficiente para que eu desistisse dela. Mas eu não desistia, por orgulho,por medo e por burrice e isso tomou proporções absurdas. 

Um aprendizado sem igual e nada desnecessário, reconheço hoje. Minha grande falha veio obviamente do meu grande medo, que era terminar e me sentir perdido após já ter saído de um casamento de 10 anos: Durante o relacionamento, para driblar os ataques dela, eu usei uma tática que uso com alguns amigos que eu vejo que não são tão amigos assim: eu dou corda. O cara pisa na bola, me ofende, tenta me excluir do grupo e eu vou bancando o ingênuo e deixando rolar até que sobre uma de duas situações: ou ele vê o ridículo de sua atitude e toma tento ou a amizade acaba. Só que em relacionamentos amorosos eu concluí que não dá pra usar essa tática, porque existem outros sentimentos envolvidos, existe atração física - ou não, existe a possibilidade de se passar o resto da vida morando no mesmo teto que a outra pessoa, além de filhos e a família da pessoa. Há muito mais em jogo. E também não adianta usar qualquer outra estratégia num relacionamento amoroso que não passe pelo que o coração quer. Só a verdade e a transparência vencem no amor. Todos os planinhos mirabolantes, ainda que bem intencionados, no amor, caem por terra. 

Como a estratégia que ela usou, com a intenção de romper comigo desde que já tinha me usado e conseguiu o objetivo da época, que era se separar do casamento anterior, uma estratégia que também não funcionou: ela minava minha auto-estima, com pequenas sugestões de que eu não era bom o suficiente em absolutamente nada para ela. Uma, em especial, que mexe com os brios de qualquer homem criado numa sociedade machista de terceiro mundo: a de que eu não a satisfazia sexualmente. Poucas rejeições piores que essa eu senti em minha vida. Eu coloco essa no mesmo patamar do trauma de abandono de ter sido deixado sozinho num hospital com 4 anos de idade para operar os dois olhos, numa época em que os hospitais tinham normas absurdas sobre visitas e pernoites dos pais de crianças internadas. Exagero? Vixi, só não. 

As dificuldades sexuais dela, ela fazia questão de transferir para mim. E conseguia, porque implicavam no medo que eu sentia de não ser bom o suficiente. Eu também sou filho da sociedade da performance, oras. E eu adoecia mais com isso. Quem em sã consciência se relaciona com alguém que não pára de disparar golpes contra a sua auto estima? Talvez alguém que tenha medo de se perder com mais um rompimento. 

Eu era o monstro, na boca dela, para todo mundo, até para os meus pais, a quem ela telefonava constantemente e sem eu saber durante um bom tempo, apenas para reclamar de mim. Funcionava assim: ela minava minha auto-estima, fazia segredo de absolutamente tudo e quando eu enlouquecia (o que acontecia o tempo todo) eu era o monstro e ela era a mocinha indefesa da novela que precisava fugir da situação toda. Ela era a vítima, que me dizia o tempo todo que quem não é responsável pelos próprios comportamentos é vítima. Ela transferia para mim e ocultava assim o papel de vítima que ela fazia para todo mundo. Meus pais, um casal de amigos que eu tinha e que depois percebi que não eram assim tão amigos também, além de várias outras pessoas que eu vim a saber depois. 

Mas descobrir que ela descia a lenha em mim pra todo mundo pelas minhas costas não foi o que me acordou de tudo isso. Foi o novo amor, que entrou silencioso, sincero, disposto e me querendo de verdade. Demorou todo esse tempo e eu precisei ter a sorte de um amor tranquilo pra entender que quem ama de verdade, age de outro jeito. Quem ama de verdade não tem medo de se responsabilizar pelo que sente. Quem ama de verdade não se vitimiza, ao contrário, compreende e auxilia nas dificuldades, porque o amor é uma construção e não tem nada a ver com o inferno que eu vivi há dois anos. Quem ama, quer fazer dar certo. Quem ama é incapaz de começar, quiçá ampliar o rol de pequenas angústias e hostilidades medíocres de quem está insatisfeito e quer partir pra outra. 

Amor não é para todos. A capacidade de amar é tão dependente de uma configuração mental adequada como é um cérebro sem transtorno algum. E há cérebros incapazes de se conectar ao coração. Há mentes cuja inquietude é muito, mas muito pior do que as inquietudes das mentes bipolares. Há pessoas aí fora, milhares delas, milhões delas, homens e mulheres, que só podem sonhar com o sentimento de amor, mas jamais vão compreendê-lo. Do rol das configurações mentais que dão errado, o destino quis, felizmente, que eu tivesse uma configuração mental bipolar. Eu realmente não saberia o que fazer, se tivesse uma configuração mental que tivesse como sintoma a supressão da capacidade de amar.

E assim, eu sigo, amando.

Fui.


30.3.15

Toda loucura deve ser individual.

Esse blog é baseado em minhas vivências pessoais, com um filtro imaginário adaptativo de integração a uma regra geral ou seja, eu digo aqui o que eu extraí subjetivamente das minhas experiências de vida, mas tento levar essas experiências para um plano objetivo, tendo em conta que cada um deve procurar extrair o melhor de suas próprias experiências e para isso acontecer, o que eu conto eu tento deixar num plano mais generalizado. Dá?

Não foi a primeira vez que eu desisti do blog. Eu já fiz isso, eu deixo a vida soprar novos ventos e volto a escrever, mas pra passar por isso, eu tenho que dizer que vou encerrar o blog. E não entenda mal, quando eu digo que vou encerrar, naquele momento é exatamente o que eu pretendo fazer. mas eu sinto que meu compromisso aqui é com pessoas com traços de loucura parecidos com os meus e só com elas. E a elas eu devo minhas experiências de vida, que eu tento filtrar e transformar em idéias. Abdicar disso é saber que estou deixando de lado o prazer de escrever para prejudicar por omissão pessoas que ás vezes só precisam ouvir algo válido em meio a um turbilhão de vozes que não falam nada com coisa nenhuma. 

Então deixa eu resumir como minha vida tem sido vivida: Em paz, o resumo é esse. 

Comecei em março do ano passado um novo tratamento, com quetiapina e bupropiona. A primeira combinação de remédios que funcionou comigo aconteceu há 8 anos atrás. Antes disso foram tentativas furadas com vários remédios que faziam mais mal do que bem, principalmente que embotavam corpo e mente, em prol de simplesmente amansar o louco e deixar todo mundo em volta tranquilo. Não me entendam mal sobre isso, uma parte muito importante de lidar com um transtorno psiquiátrico é o sofrimento de quem convive conosco. Mas outra parte importante é como a gente fica, com a gente mesmo, em razão de determinados tratamentos. No início, há uns 10 anos, passei uns 2 anos em tentativas furadas de terapia com lítio e outras drogas muito fortes, eu diria, para o meu nível de loucura. Enquanto para muita gente esses remédios são a melhor escolha, no meu caso, bem lá atrás, por volta de 2005, com aqueles remédios do início, eu virei um vegetal e só não cometi suicídio porque estava embotado demais pra agir nesse sentido. 

Mas de 8 anos pra cá, tive 3 ótimas experiências com remédios: primeiro foi o Trileptal, que comigo funcionou bem por 4 anos, até que eu começasse a perceber problemas de memória. Depois foi o Lamictor, que funcionou bem por 3 anos e no final do ano de 2013 eu senti claramente que já não fazia mais o mesmo efeito, até que no final daquele ano eu desisti de tomar, porque realmente não fazia sentido - e eu estava passando por uma situação pessoal terrível, então minha mente era só confusão. Felizmente, em março de 2014 comecei minha terceira ótima experiência com medicamentos: comecei a tomar Quetiapina e Bupropiona. O antidepressivo, a Bupropiona, foi indicação da psiquiatra. Mas a Quetiapina foi uma sugestão minha, quando me consultei com ela em março de 2014 e eu devo isso ao que li em inúmeros blogs como o meu, que recomendavam a tentativa. 

Vale aqui repetir o que eu sempre disse: Se o seu psiquiatra não respeita os sintomas negativos de seu tratamento que você relata e insiste em manter medicações que não estão ajudando, exija estabelecer um limite de tempo em que a tentativa furada dele vai ser testada. Toda loucura é tão individual que os tratamentos também costumam ser. Se o seu psiquiatra não respeita isso, mude de psiquiatra. Quem se ferra com os sintomas é você. Quem vive longos períodos passeando no inferno é você. 

É claro que todo tratamento tem seus limites, em relação ao que pode nos propiciar, mas quando se está num tratamento onde um equilíbrio geral parece ter sido razoavelmente alcançado, já está de bom tamanho. Eu diria que em relação ao transtorno bipolar, se o cara não agride ninguém de forma preocupante, tem seu pensamento razoavelmente organizado e consegue ser pro ativo, o resto é com ele, como é com todo mundo e não é preciso esperar mais do remédio. Sempre tem aquele ponto onde a pessoa com o transtorno vai ter que dar de si também, o problema é que com um tratamento inadequado, a pessoa muitas vezes tem na mente que está fazendo sua parte (pois está se tratando, que diabos ela sabe de remédio?), pois está se submetendo a um tratamento muitas vezes desumano consigo e que por não estar dando certo, ele vai se culpar e isso além de ser uma baita injustiça, não resolve nada, 

Bipolaridade é o que eu tenho. Minha psiquiatra sempre acreditou nisso, Mas eu andei no passado com idéias totalmente erradas na minha cabeça, sobre ser um possível Borderline. Nada mais inverossímil. Borderlines tem um quê de psicopatia, de personalidade antissocial: outro tipo totalmente diferente de loucura. Na minha loucura psicótica eu tenho surtos de agressividade. mas a loucura psicopática é diferente da psicótica. Eu diria que a loucura do antissocial, a loucura com traços de psicopatia é o excesso de razão, a razão pura, mas tão pura que só importa o objetivo lá na frente. A loucura da falta de sentimentos. Não, obrigado. Minha loucura é outra. A minha loucura é a do excesso de sentimentos, não do excesso de razão. E quando eu digo razão, quero dizer objetivos. Não tenho nenhuma formação para julgar se os comportamentos dos psicopatas podem ser considerados desvios de caráter. Acho que o fato deles não se importarem com os sentimentos dos outros depõe nesse sentido, mas até aí, a agressividade de um surto psicótico, na prática, também. 

Por isso eu digo e repito, toda loucura deve ser individual. Na verdade, não importa muito se eu sou bipolar, se o psicopata é borderline, se o esquizofrênico é paranóide ou esquizóide. Importa se permitir dar a chance, através de um tratamento adequado, que o melhor de si mesmo consiga emergir de uma situação ruim. Daí essa situação ruim, no nosso caso, a loucura, vai ser muito mais uma experiência positiva do que uma mera doença, ou transtorno. Do mesmo jeito que um psicopata é ardiloso e traça minuciosamente seus planos, é um traço da nossa doença ser ingênuos, não porque queremos, mas porque na falta de um tratamento adequado temos o pensamento distorcido e não conseguimos entender direito o que se passa a nossa volta. Tudo bem, porque depois de constatar isso - e eu só consigo constatar isso quando meu pensamento está organizado - eu percebo que minha ingenuidade é hoje uma escolha. A ingenuidade, se em boa medida, nos leva a ter fé nas pessoas. Não pretendo abrir mão desse traço da minha loucura, que me torna acima de tudo, humano. 

Fui. Voltei. Fui. Voltarei. 


24.3.15

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Estou de volta. E vou postar tudo que eu quiser. Tá pra nascer quem vai me impedir.

Fui.