30.3.15

Toda loucura deve ser individual.

Esse blog é baseado em minhas vivências pessoais, com um filtro imaginário adaptativo de integração a uma regra geral ou seja, eu digo aqui o que eu extraí subjetivamente das minhas experiências de vida, mas tento levar essas experiências para um plano objetivo, tendo em conta que cada um deve procurar extrair o melhor de suas próprias experiências e para isso acontecer, o que eu conto eu tento deixar num plano mais generalizado. Dá?

Não foi a primeira vez que eu desisti do blog. Eu já fiz isso, eu deixo a vida soprar novos ventos e volto a escrever, mas pra passar por isso, eu tenho que dizer que vou encerrar o blog. E não entenda mal, quando eu digo que vou encerrar, naquele momento é exatamente o que eu pretendo fazer. mas eu sinto que meu compromisso aqui é com pessoas com traços de loucura parecidos com os meus e só com elas. E a elas eu devo minhas experiências de vida, que eu tento filtrar e transformar em idéias. Abdicar disso é saber que estou deixando de lado o prazer de escrever para prejudicar por omissão pessoas que ás vezes só precisam ouvir algo válido em meio a um turbilhão de vozes que não falam nada com coisa nenhuma. 

Então deixa eu resumir como minha vida tem sido vivida: Em paz, o resumo é esse. 

Comecei em março do ano passado um novo tratamento, com quetiapina e bupropiona. A primeira combinação de remédios que funcionou comigo aconteceu há 8 anos atrás. Antes disso foram tentativas furadas com vários remédios que faziam mais mal do que bem, principalmente que embotavam corpo e mente, em prol de simplesmente amansar o louco e deixar todo mundo em volta tranquilo. Não me entendam mal sobre isso, uma parte muito importante de lidar com um transtorno psiquiátrico é o sofrimento de quem convive conosco. Mas outra parte importante é como a gente fica, com a gente mesmo, em razão de determinados tratamentos. No início, há uns 10 anos, passei uns 2 anos em tentativas furadas de terapia com lítio e outras drogas muito fortes, eu diria, para o meu nível de loucura. Enquanto para muita gente esses remédios são a melhor escolha, no meu caso, bem lá atrás, por volta de 2005, com aqueles remédios do início, eu virei um vegetal e só não cometi suicídio porque estava embotado demais pra agir nesse sentido. 

Mas de 8 anos pra cá, tive 3 ótimas experiências com remédios: primeiro foi o Trileptal, que comigo funcionou bem por 4 anos, até que eu começasse a perceber problemas de memória. Depois foi o Lamictor, que funcionou bem por 3 anos e no final do ano de 2013 eu senti claramente que já não fazia mais o mesmo efeito, até que no final daquele ano eu desisti de tomar, porque realmente não fazia sentido - e eu estava passando por uma situação pessoal terrível, então minha mente era só confusão. Felizmente, em março de 2014 comecei minha terceira ótima experiência com medicamentos: comecei a tomar Quetiapina e Bupropiona. O antidepressivo, a Bupropiona, foi indicação da psiquiatra. Mas a Quetiapina foi uma sugestão minha, quando me consultei com ela em março de 2014 e eu devo isso ao que li em inúmeros blogs como o meu, que recomendavam a tentativa. 

Vale aqui repetir o que eu sempre disse: Se o seu psiquiatra não respeita os sintomas negativos de seu tratamento que você relata e insiste em manter medicações que não estão ajudando, exija estabelecer um limite de tempo em que a tentativa furada dele vai ser testada. Toda loucura é tão individual que os tratamentos também costumam ser. Se o seu psiquiatra não respeita isso, mude de psiquiatra. Quem se ferra com os sintomas é você. Quem vive longos períodos passeando no inferno é você. 

É claro que todo tratamento tem seus limites, em relação ao que pode nos propiciar, mas quando se está num tratamento onde um equilíbrio geral parece ter sido razoavelmente alcançado, já está de bom tamanho. Eu diria que em relação ao transtorno bipolar, se o cara não agride ninguém de forma preocupante, tem seu pensamento razoavelmente organizado e consegue ser pro ativo, o resto é com ele, como é com todo mundo e não é preciso esperar mais do remédio. Sempre tem aquele ponto onde a pessoa com o transtorno vai ter que dar de si também, o problema é que com um tratamento inadequado, a pessoa muitas vezes tem na mente que está fazendo sua parte (pois está se tratando, que diabos ela sabe de remédio?), pois está se submetendo a um tratamento muitas vezes desumano consigo e que por não estar dando certo, ele vai se culpar e isso além de ser uma baita injustiça, não resolve nada, 

Bipolaridade é o que eu tenho. Minha psiquiatra sempre acreditou nisso, Mas eu andei no passado com idéias totalmente erradas na minha cabeça, sobre ser um possível Borderline. Nada mais inverossímil. Borderlines tem um quê de psicopatia, de personalidade antissocial: outro tipo totalmente diferente de loucura. Na minha loucura psicótica eu tenho surtos de agressividade. mas a loucura psicopática é diferente da psicótica. Eu diria que a loucura do antissocial, a loucura com traços de psicopatia é o excesso de razão, a razão pura, mas tão pura que só importa o objetivo lá na frente. A loucura da falta de sentimentos. Não, obrigado. Minha loucura é outra. A minha loucura é a do excesso de sentimentos, não do excesso de razão. E quando eu digo razão, quero dizer objetivos. Não tenho nenhuma formação para julgar se os comportamentos dos psicopatas podem ser considerados desvios de caráter. Acho que o fato deles não se importarem com os sentimentos dos outros depõe nesse sentido, mas até aí, a agressividade de um surto psicótico, na prática, também. 

Por isso eu digo e repito, toda loucura deve ser individual. Na verdade, não importa muito se eu sou bipolar, se o psicopata é borderline, se o esquizofrênico é paranóide ou esquizóide. Importa se permitir dar a chance, através de um tratamento adequado, que o melhor de si mesmo consiga emergir de uma situação ruim. Daí essa situação ruim, no nosso caso, a loucura, vai ser muito mais uma experiência positiva do que uma mera doença, ou transtorno. Do mesmo jeito que um psicopata é ardiloso e traça minuciosamente seus planos, é um traço da nossa doença ser ingênuos, não porque queremos, mas porque na falta de um tratamento adequado temos o pensamento distorcido e não conseguimos entender direito o que se passa a nossa volta. Tudo bem, porque depois de constatar isso - e eu só consigo constatar isso quando meu pensamento está organizado - eu percebo que minha ingenuidade é hoje uma escolha. A ingenuidade, se em boa medida, nos leva a ter fé nas pessoas. Não pretendo abrir mão desse traço da minha loucura, que me torna acima de tudo, humano. 

Fui. Voltei. Fui. Voltarei. 


24.3.15

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Estou de volta. E vou postar tudo que eu quiser. Tá pra nascer quem vai me impedir.

Fui.

19.9.14

Alerta final.

Um leitor escreveu e acho que o que eu ia responder a ele, posso dizer a todos, sobre minha decisão. 

Ô Tonho, para com isso, cara!! Num para o blog não! Que isso!! Pelo menos da minha parte, toda vez que me sentia deslocado por causa de tudo que a doença causa, suas ideias sempre davam um alento pra que não achasse que era o único a sofrer. A morte da sua irmã foi terrível! Mas o fato de você continuar vivo e lutando, tem sido INSPIRADOR!!


Pelo visto, sua namorada tem muito a acrescentar a você. Uma guerreira entende melhor a gente! E você dá a entender que a vida dela não tem sido nenhum mar de rosas, desde a infância.


Vai embora não, cara. Porra, acompanho seu blog em silêncio por tantos anos e agora que faço contato você DESISTE?? Faz isso não, parceiro!! 


As trevas não podem vencer... Não de novo... Não conosco... Vão ter que nos engolir...


leo



.................
Não tem treva não, Leo. Ninguém engole a gente a não ser a gente mesmo. 

Eu escrevo, mas não sou escritor. Desde que eu vim aqui, em 2005, cada postagem minha era de alguma forma um nó na minha própria garganta, uma necessidade de contar para outras pessoas que eu queria alertar, de forma meio ingênua, acreditando que eu tinha encontrado uma solução para cada situação que eu retratei aqui. E cada pessoa tem sua história, isso tem sido cada vez mais verdadeiro para mim. 

Então os nós na garganta que eu tinha e queria contar aqui, para mais uma vez "alertar" as pessoas que me leem, tinha muito a ver no final das contas, com eu simplesmente constatar que a loucura, a minha, a sua, a nossa loucura, muitas vezes é confundida com a loucura de pessoas aparentemente sãs que estão a nossa volta e que alimentam a própria loucura enquanto culpam a nossa loucura. Não importa que as mínimas variações de sintomas aumente o número de transtornos existentes hoje nas classificações aceitas. Muita gente (eu, incrédulo, diria que a maioria) vai querer sempre parecer o mais normal, que dirá quando é característica da própria loucura fazer questão de vender uma aparência de ser essa pessoa absolutamente normal. Todo mundo, independente do transtorno que o rotula, sempre vai tentar impor seu jeito de pensar e agir como o padrão ideal de sanidade. 

E nós, os reconhecidamente loucos, sempre veremos nossa loucura como o bode expiatório das mazelas do mundo. 

É clichê dizer "ei,não deixe o mundo ditar as regras da sua loucura"? Tá dito. Muitas pessoas sempre irão tentar impor seu modo de ver as coisas e vão usar a nossa loucura contra nós para convencer a gente e o resto do mundo que eles é que estão certos. Se conseguirmos assumir o perigo que nossos atos representam, não iremos cuidar melhor para que eles parem de destruir, quando são destrutivos?

Hoje eu acredito que qualquer pessoa, por mais transtornada ou por mais aparentemente normal que seja, consegue estar ciente, se quiser, nem que por alguns instantes, do perigo que ela é, do mal que ela pode causar a outras pessoas, se deixar sua própria loucura, ou pretensa sanidade decidir, ao invés de usar sua loucura ou pretensa sanidade para refletir sobre os porquês das necessidades suas e sobre as consequências para quem absorve os reflexos dos seus atos

Boa parte das pessoas simplesmente ignora isso porque não entende que tudo, não importa no contexto de loucura ou sanidade, tudo é o poder de escolha, Tudo é a própria liberdade tendo voz dentro de cada um, e dando a cada pessoa poder para decidir o que fazer da própria vida. Muitas pessoas não se importam com as consequências dos seus atos, a maioria nem se dá conta do mal que faz, em muitos momentos da vida. E sempre irão manipular para obter o que na cabeça delas é uma vantagem, o poder que o controle pelo controle traz, a não ser... que a liberdade de escolha do controlado faça com que o controlador perca o poder que tinha. As ameaças que eu sofri não surtiram o resultado esperado, antes me incentivaram, diante da minha liberdade de escolha, a recomeçar em outro lugar, mas escrevendo tudo o que eu acho que devo contar. 

Não fui vencido, nem nada disso, por parar com o blog. Só vou para outro lugar, recomeçar, escrever com liberdade novamente. Sempre prezei meu anonimato aqui no blog. No momento que eu desrespeitei isso, eu já sabia que um dia poderia ser cobrado. É justo dizer que estou dando poder a essa pessoa de decidir os rumos da minha vida? Ou as ameaças que me fizeram migrar de blog, ir para outro canto qualquer do mundo fez com que essa pessoa perdesse, de vez, o controle sobre o que eu vou escrever? 

Tenho todo o direito de me libertar. E tenho todo o direito de escrever a minha história. Tenho todo o direito de ser mais um, anônimo, escondido do mundo. E lamento. Mas é o que é. 

Não deixem nunca que o que o mundo define hoje como normal, seja imposto sobre o poder de escolha que sua loucura traz a vocês.