28.7.14

Campo dos sonhos

Não saber lidar com o sucesso é um problema tão constante e difícil como não saber lidar com o fracasso. Aprendi essa lição recentemente. Sinto minha estabilidade cérebro-química-medicamentosa-psíquica ameaçada por uma situação de sucesso que se aproxima na minha vida. Fui convocado como um dos 5 treinadores de boxe da delegação de 21 atletas do estado onde moro, que vai enfrentar outras 20 delegações no campeonato brasileiro de boxe que se aproxima. Isso é algo muito, muito grande mesmo. De um tempo pra cá percebi que não vou ser feliz profissionalmente se acabar meus dias na minha profissão atual. E fui dando os passos que devia dar no mundo dos sonhos, ótimo. Só que agora, como tudo que é passo dado no mundo dos sonhos, o resultado veio, com essa convocação. E com ela, o medo, o insano medo, o mesmo medo que eu tenho de adentrar com muita força no campo do amor novamente, o mesmo medo que me faz me sabotar, que me faz arrumar um jeito de me sentir menos, sempre. Só que dessa vez é diferente. Dessa vez não é só por mim, outros dependem da minha motivação, da minha tranquilidade, da segurança que eu inspiro, quando estou inspirado. Dessa vez não dá pra errar. 

É incrível. Eu venho me questionando sobre a influência do medicamento no que eu considerava como um dos melhores períodos de estabilidade que tive. E é tão bom, que eu decidi que nada poderia atrapalhar isso. Então eu dispenso paixões arrebatadoras, dispenso emoções muito fortes. Eu quero paz, quero a ausência de prazeres infindáveis, alegrias intermináveis e orgasmos múltiplos em minha vida, pelo menos por um tempo. A paz é o melhor remédio, no momento, literalmente, nada me deixa mais feliz do que não sentir as alterações físicas e de humor que meu cérebro geralmente desordenado é capaz de produzir, igualmente, em períodos de alegrias e de dores imensas. 

Só que uma guerra se aproxima.  E eu vou ser um dos caras no córner. No centro de treinamento, fechado, por 10 dias seguidos. Com dirigentes nacionais de um problemático mundo esportivo. Com fiscais de comitês olímpícos. Com olheiros de  promotoras internacionais. Com emissoras de tv. Com atletas que ganharam medalhas em panamericanos, em olimpíadas, gente que passa deslizando com facilidade pela minha dificuldade de lidar com a vitória. Com um monte de coisas a que eu simplesmente não estou nem um pouco acostumado. Eu sou o cara escondido. O irmão que transita como um rato de sparring nas academias e ao mesmo tempo, o doutor que transita como diretor jurídico nas federações, uma combinação letal, alguém com a habilidade e confiança necessária, dizem, para fazer prevalecer o interesse de quem mais interessa nesse jogo, o lutador. Alguém que valoriza a figura do lutador, simplesmente porque ama ser um também. 

É de tremer na base. Não vou negar, estou cheio de medo, cheio de paixão, cheio de emoções fortes por causa desse evento. Dez dias concentrado, em nada além de vitória. E obtenção de fundos, se possível. E reunir presidentes de federações, conversar, mapear o quadro de um esporte olímpico que é de uma desigualdade inacreditável, dentro de uma organização verticalizada, monopolizada, difícil de entender e que vem toda descrita em inglês, em seus regulamentos internacionais e documentos acostados infindáveis. 

Eu sinto claramente o despertar do alarme do humor alterando, há poucos dias de partir para o mundo dos sonhos, onde eu vou estar permeando o que no futuro pode virar uma carreira sólida dentro do esporte, que é o que eu quero, muito além do que o que eu faço hoje.  Eu nunca estive tão alinhado no caminho dos meus sonhos. E isso é tão assustador que chega a desestabilizar. E quando eu sinto esse desestabilizar, eu questiono se não é melhor ficar enterrado aqui, na pequena e solitária cidade onde vivo, com meu emprego antigo, assistindo a banda de rock antiga, vivendo minha vida antiga. 

Não, pera aí.   

Fui. 
Terra do urso e terra da águia
Terra que nos deu o nascimento e a benção
Terra que sempre nos chama de volta
Nós iremos para casa, através das montanhas

15.7.14

No tengo nada.

Às vezes dá vontade de parar com a medicação, só pra ter certeza que eu de fato tenho alguma “coisa”. Os últimos anos foram muito estressantes e finalmente estou tendo paz, tudo se ajeitou inclusive dores sentidas, frustrações vividas e alegrias desmedidas. “Estou” normal, é isso: Homeostase, equilíbrio. Assumir as rédeas da própria vida. Entregar os pesos e as reais medidas, de tudo o que foi dito, experimentado, revirado, revoltado, revivido e resguardado. A vida é bela. Eu tenho sorte, quem diria.

“Não acredito quando me dizem que você é um louco”, me diz um advogado antigo daqui onde vivo, que me encontra num show de rock de uma banda antiga, daqui onde vivo. Acredita sim, porque é confortável para ele. Mas no momento, tenta ser solidário indo contra as difamações por mim sofridas, ou quer me dar um recado educado. O que me impressiona é a minha capacidade de dar de ombros ao comentário e seguir cantando tudo que é rock de primeira linha, coisa de banda de rock antiga. E antigamente eu não era assim, antigamente faltava tranquilidade, hoje está sobrando.

 Voltei a sair com a garota de 23 anos, parei com o preconceito que tinha pela sua idade. Ela é incrível, já viveu de tudo: competiu em umas mil provas de rodeio, acampava com os cavalos nas cocheiras de todos os rodeios que ia, nem em hotel queria ficar. Faz trilha de moto, entende de mecânica de autos, gosta de música que presta e é o que é simplesmente sendo, não aparecendo, ou só parecendo ser aquilo que nunca foi. Não me cobra nada, não me pressiona jamais, sabe da minha doença, mas isso de fato não lhe interessa. É jovem, quer se divertir e apenas isso. Seu pai é apenas um ano mais velho que eu e ela tem uma sintonia incrível com ele, então acho que Freud não explica nada.

Sinto o impulso de fazer coisas por mim, coisas bestas, do dia a dia, mas que importam pra autoestima. Minha diarista lesionou o dedo, me abandonou e foi ótimo. Indicou outra, mas eu não quis. Agora lavo a roupa, mantenho a casa e tenho até planos para o jardim. Gosto da minha companhia, gosto das noites de domingo sozinho. Então, o que eu tenho mesmo?

Borderlines não suportam a solidão, não é o meu caso. Bipolares nunca ficam curados, ou pelo menos nem sempre ficam estáveis. No momento, isso não se parece nada comigo. Caramba, é estranho. Nem lembro direito das minhas manifestações de ódio, digo, na vida real, mas 9 anos de blog estão lá, nos rascunhos, pra não me deixar esquecer desse passado. O que eu me pergunto é até que ponto a medicação é quem fez toda essa diferença? Porque veja bem, tomei remédio de todo tipo em 10 anos e além disso, enfrentei suicídio da irmã, câncer da ex, quando ainda éramos casados, conflitos com os pais, que duraram a vida toda, até agora, porque também acabaram. Duas separações, ambas com uma saraivada de difamações e isso me queimou mesmo, na pequena cidade onde vivo e o reflexo disso tudo, no meu sentir, hoje é inócuo, vide meu dar de ombros ao advogado no show de rock da banda antiga.

Todo mundo vive seu inferno pessoal. Todo mundo fica na parte baixa do ciclo, pra depois subir e no futuro passar outras poucas e boas. Quem tem um transtorno também, mas talvez a dificuldade em reconhecer essas variações seja mesmo maior do que se nada tivesse. Sei lá. Não desprezo tudo o que passei. Mas hoje, equilibrado, eu entendo porque tanta gente acha que transtorno é desculpa e frescura. Porque hoje, fora o detalhe de administrar 3 comprimidinhos (02 de um estabilizador e um de um antidepressivo) ao dia, eu sinto como se não tivesse nada.

E nossa, é estranho deixar todo um inferno lá atrás, onde as coisas perdem a razão de terem um dia sido.

Fui. 

9.7.14

Instinto

Eu nunca mais deixo de confiar no meu instinto. Passei mais de ano tentando entender o que aconteceu comigo durante o meu último relacionamento sério, por que eu não conseguia confiar nela, porque tudo me cheirava a uma dissimulação de alguém que não sabia realmente o que queria. Daí ontem escrevi para ela, contando como me sentia, das respostas que não vieram após o término, do quanto isso tudo me incomoda até hoje. Ela mais uma vez usou suas evasivas, as mesmas respostas padrão de sempre. Só que eu soube como conduzir a conversa, e ela, com muita raiva por estar sendo desmascarada, acabou sendo pega mentindo várias vezes para mim, até baixar o nível e mostrar quem é de verdade: uma pessoa vil, controladora, incapaz de amar, sem sentimentos por ninguém que não ela mesma e mesmo assim, os piores sentimentos possíveis. Uma pessoa  extremamente confusa sobre o que sente e o que quer. 

Senti um alívio imenso. O problema é a idealização. Quando a gente se apaixona, a gente cria uma imagem na nossa cabeça, que não corresponde a quem a pessoa é de verdade. E às vezes, é duro demais enxergar que aquela imagem era só isso mesmo, uma idealização, porque isso implica assumir que erramos em nossa escolha. Não me apaixonei por ela. Me apaixonei pela imagem que eu criei e que entre ontem e hoje, conversando por email, ela desmistificou. Finalmente. Poderia ter acontecido antes, eu dei todas as chances dela ser honesta comigo, mas tem gente que se você obrigar a dizer a verdade, parece que vai explodir. Bem, hoje ela disse. Não foi bonito. Mas foi melhor do que a patifaria inútil que eu passei o ano todo, me sentindo culpado por algo que não tinha nada a ver comigo.

Fui.